A justiça não é uma convenção


Definitivamente, há pessoas que não conseguem entender que o problema de uma comunidade não é saber até que ponto esta consegue chegar a uma norma que agrade às partes, mas ter um critério justo para essa norma. Um grupo de pessoas pode viver em comum e chegar a consensos sobre matérias que limitam a sua relação social e estabeleçam o que é a liberdade. Pode até, acaso não chegue a consensos, inventar (consensualmente ou não) que o maior número deve determinar as opções a serem legisladas. Mas dizer que isso significa que a constituição dessa comunidade terá necessariamente elementos de justiça, que a promovem e dela são reflexo, é uma perturbação ideológica de quem tem no seu sistema de crenças (no seu critério anterior) que o homem é tendencialmente bom, sem que do Bem tenha contudo qualquer ponto de referência que não seja a satisfação da vontade de um colectivo enquanto mescla das vontades individuais.


 


Este antropocentrismo, que projecta ideologicamente a virtude e a pensa assim como premissa universal, não acalenta mais do que justificar as escolhas do "querer". E se os indivíduos podem decidir que virtudes são essas, acabam também por permitir que todas as conclusões morais sejam válidas e aparentemente boas. Basta imaginarmos um bando de masoquistas que, vivendo em comunidade, têm como regra espancarem-se diariamente para atingirem a satisfação de uma necessidade. O facto do acordo ser unânime, ou maioritário, faz com que as suas condutas sejam justas, isto é, tendentes ao Bem? Podemos até considerar a contribuição dessas condutas para a paz social, mas há que perguntar primeiro que raio de paz vive da injustiça, ainda que ela seja resultado das "garantias necessárias à convivência".


 


É por isto que o catolicismo deve actuar nos palcos políticos. Negá-lo é remeter Jesus para uma sacristia que, nos últimos séculos, caiu na ratoeira de pregar mais o socialismo que o Decálogo. Haja quem liberte a Igreja da armadilha. Haja quem anuncie o Reinado Social de Cristo.

publicado por Afonso Miguel às 18:12 | link do post | comentar