Da liberdade religiosa, segundo Bento XVI

Se muito criticam Bento XVI por agir na linha conciliarista da velha matéria de liberdade religiosa, é porque não lêm Bento XVI. Do que o Santo Padre sabe é que a questão é hoje outra, muito mais complexa, e vem bem na sequência dos dois posts anteriores (notas minhas):


 



«A verdadeira contraposição que caracteriza o mundo actual não é entre culturas religiosas diferentes, mas entre a radical emancipação do homem em relação a Deus, às raízes da vida, por um lado, e as grandes culturas religiosas, por outro. Se vier a acontecer um choque de culturas não será pelo choque das grandes religiões - desde sempre em luta umas contra as outras mas que, afinal, sempre souberam viver umas com as outras -, mas sim pelo choque entre esta radical emancipação do homem e as grandes culturas históricas. Deste modo, também a recusa da referência a Deus (na Constituição Europeia) não é expressão de uma tolerância que pretende proteger as religiões não teísta e a dignidade dos ateus e dos agnósticos, mas antes expressão de uma consciência que pretende ver Deus definitivamente apagado da vida pública da humanidade e atirado para a esfera subjectiva de culturas residuais do passado. O relativismo, que constitui o ponto de partida de tudo isto, torna-se assim um dogmatismo que se julga em poder do conhecimento definitivo da razão e no direito de considerar tudo o resto um mero estádio ultrapassado da humanidade e que pode ser adequadamente relativizado (o fim marxista da história). Na realidade, isto significa que temos necessidade de raízes para sobreviver, e que não devemos perder Deus de vista se queremos que a dignidade humana não desapareça.»


 


in A Europa de Bento na crise de culturas



 


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A propósito e com ligação directa à situação espanhola: Ratzinger: "La educación sexual amenaza la libertad religiosa en Europa".

publicado por Afonso Miguel às 01:10 | link do post | comentar