De como os bispos portugueses estão em clara cisão [III]

Num tom mais sério que o do post anterior, convém analisar as palavras de D. Ilídio, bispo de Viseu, relativamente ao seu alcance e gravidade disfarçadas. Em artigo publicado no sítio da diocese que lhe foi confiada, D. Ilídio fala sobre o uso do preservativo, a pretexto da polémica iniciada pelos media durante a visita papal a África, para admitir a obrigação ética de usar aquele contraceptivo em determinados casos particulares, sem contudo se opor abertamente ao que considera ser a regra geral da moral sexual católica recentemente invocada pelo Santo Padre.

Esta posição do bispo de Viseu trouxe-me imediatamente à memória a daqueles que há bem pouco tempo defendiam a liberalização do aborto, mas ressalvavam sempre não o apoiarem como solução. Quando o debate sobre esta questão se iniciou a propósito do referendo que se seguia, quase todos os sectores que acorreram a apelar ao voto favorável à liberalização se diziam, simultaneamente, avessos a que o aborto fosse classificado como boa prática. Ou seja, admitiam que o flagelo de matar um ser humano não poderia ser apresentado como antídoto para os males que o antecedem, querendo contudo que a sua prática deixasse de ser criminalizada. Óbvio que sabemos que o flagelo de que falavam muitos desses sectores era apenas o da mulher, que de facto existe e é tremendo mas infinitamente menor do que o de tirar a vida a um ser humano inocente.

O que D. Ilídio escreveu sobre o preservativo e a aplicação concreta da moral sexual católica bebe da mesma lógica sinistra dos que defendiam o aborto dentro destas premissas absolutamente contraditórias, e é isso que torna a situação muito grave. Vejamos que o bispo vem à praça pública defender que aquela aplicação não deve ser condenada pela Igreja em determinados casos que fujam à orientação moral que esta propõe. E D. Ilídio vai mais longe, considerando que o uso do preservativo é mesmo uma obrigação ética quando a pessoa se encontra infectada pelo HIV, abrindo inclusivamente as portas à possibilidade do parceiro do seropositivo não ter sequer conhecimento da sua doença mortal.

Esta falta de raciocínio lógico e a consequente conivência com um acto potencialmente criminoso têm que ser apontadas, sob pena de pairar a suspeita de que o texto de D. Ilídio em nada fere as palavras do Sumo Pontífice, ou até as favorece ou completa. Aliás, é notória a preocupação do bispo de Viseu quando tenta justificar a sua posição com a do Santo Padre, procurando fazer crer que em nada divergem. Mais, aponta mesmo o dedo à comunicação social por ter mal interpretado a questão. Não deixando de ser verdade, o que este faz no sítio da Diocese de Viseu é, isso sim, a mais acutilante ferida na mensagem de Bento XVI, disfarçando-se de perfeitamente concordante com as palavras do Papa mas rendendo-se às modernas exigências do mundo que apelam a uma moderação podre nestas matérias.

Mas é aqui que a Igreja tem que ser radical. Em primeiro lugar, porque é impossível querer limitar a orientação moral católica, seja em que campo for, a um mero conjunto de regras generalistas que, em confronto com a vida, tenham que ser contornadas consoante umas ou outras condicionantes. Ou a proposta da moral católica chega a todos os campos dessa vida humana, iluminando-a, aconselhando-a e condenando o erro em que todos incorremos, ou deixa de ser moral universal. O que D. Ilídio acaba por precisamente admitir é que a moral católica não pode ser aplicada a determinados aspectos da vida sexual e que a atitude ética é aquela que lhe é contrária.

Em segundo lugar, e já dentro da excepção aberta - de que os infectados têm direito a manter uma vida sexual activa, mesmo que o parceiro não tenha conhecimento da doença, devendo usar o preservativo - D. Ilídio não esclarece qual é a proposta moral de relacionamento e prática sexual feita pela Igreja. Limita-se a considerar que a fidelidade se baseia em confiança mútua - o que não condiz sequer com a possibilidade do seropositivo esconder a sua condição - mas não especifica em que balizas essa confiança deve ser levada a cabo. Ou seja, D. Ilídio reduz a sexualidade a uma necessidade básica, à qual a pessoa pode não ser capaz de renunciar, e não a enquadra no amor e na família monogâmica, partes integrantes da moral católica para esta matéria. Isto, quando o que deveria ter feito era apontar a aceitação da moral cristã como único critério bom para aquela sexualidade, única proposta plausível para a não propagação do vírus, quer pela fidelidade conjugal – sublinhe-se aqui o conjugal – quer pela abstinência. Para mais, mesmo não a aceitando, é fácil entender que o preservativo é falível e não impede em absoluto a infecção, o que contradiz também a inabalável fé modernista neste meio contraceptivo.

Portanto, existe não só um claríssimo desvio relativamente à doutrina, como uma tentativa, deliberada ou não, de deturpar as palavras de Bento XVI de uma forma que nem a comunicação social ou os opinion makers ousaram fazer: a sofistica. Mais preocupante é que D. Manuel Clemente também já tenha admitido a mesma linha de pensamento e que D. José Policarpo não tenha querido pronunciar-se sobre o caso, fazendo adivinhar uma reacção idêntica ou que em pouco fuja à apostasia de D. Ilídio.

Está para chegar a hora em que Bento XVI se pronunciará definitivamente sobre o estado do episcopado português que, em variadíssimas matérias, tem demonstrado uma profunda cisão com Roma. É bom que ponham os olhos no levantamento das excomunhões aos bispos da FSSPX, no desejo de diálogo e de aprofundamento dos problemas que a fraternidade tem vindo sempre a levantar, bem como na carta que Sua Santidade endereçou a todos os bispos falando sobre as reacções irracionais que esse sinal de reconciliação gerou. A grande clarificação não tardará a chegar e apontará, a pouco e pouco, quem obedece ainda à cátedra de Pedro. Um prelado que escreva que o Papa não pode legislar para casos particulares e, no mesmo texto, acabe por substituí-lo nessa função, muito dificilmente fará parte dos eleitos.
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publicado por Afonso Miguel às 22:12 | link do post | comentar