Dos que crêem que em nada devem crer [III]

O vazio criado pelo niilismo é absolutamente preenchido pela crença no "nada" - que se distingue substancialmente de em nenhuma coisa acreditar (condição que pode acarretar a convicção de que algo poderá vir ainda a ser digno de crédito). Longe de se contentar com a contradição limite desse vazio dogmático, a religião do espaço e do tempo sem o sentido do Outro flui sempre para a criação ideológica. E a ideologia, como produtora de verdades que justifiquem anteriormente a acção que lhe é consequente, não busca o conhecimento pelo reconhecimento ou pela aceitação (pela contemplação), mas por um processo criativo sem critério exterior fixo que o regule. O critério passa a ser o homem sem critério, em nova contradição.

Daqui surgiram as mortíferas filosofias políticas do pós-revolução francesa, das quais destacam-se com especial terror os totalitarismos europeus do comunismo e do seu enteado nacionalista alemão. Consoante conveniências mais ou menos perceptíveis - as da vergonha dos germânicos é bem sabida - são inventados inimigos que justifiquem um estado actual pior do que o desejado no futuro, pelo que se torna imperioso o seu combate sob as mais tiranas formas. Só os judeus servem de base à perda do espaço-vital, à crise económica alemã, à permanente conspiração contra a nação e, por fim, à formulação da ciência que tentou desvendar a superioridade da raça para ser linha condutora da justificação moral do nazismo.

Em último caso, o niilismo é, em si, uma ideologia. É aquilo a que poderíamos chamar de neo-religião positivista, servida pelos mais escabrosos sacerdotes.
publicado por Afonso Miguel às 20:09 | link do post | comentar