Hão-de entrar nos templos


A decisão do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos sobre os crucifixos nas salas de aula é uma ode extraordinária ao secularismo, como premissa essencial de um Estado que queira acatar uma norma internacionalmente imposta de princípios dados como fundamentais e indiscutíveis. Sobretudo, é um espelho da mecânica desse secularismo e das consequências para a liberdade religiosa que se adivinham no mundo ocidental.


 


O cristianismo é, intrinsecamente, uma religião iniciática. A Igreja tem no seu percurso e na sua vivência esta lógica explícita de que os descendentes dos crentes devem ser educados e iniciados nos mistérios da Fé desde tenra idade, como símbolo e prática real de um processo de identificação com Cristo e o Seu Corpo militante, em que se confia a Tradição Católica às novas gerações. Deste percurso feito antes da maioridade civil fazem parte, por exemplo, o Baptismo e a primeira comunhão sacramental, bem como, por vezes, a própria Confirmação. São três momentos em que, não considerando o Estado estarem os cidadãos em pleno uso de faculdades de decisão e sendo assim dependentes dos parentes, estes optam, à luz da lei, pelos filhos e encaminham-nos num sentido bem definido do ponto de vista dos valores.


 


Acontece que a decisão daquele tribunal europeu alega que os crucifixos nas escolas violam o direito dos pais enquanto educadores, mas também a liberdade religiosa das crianças. E a pergunta que surge de imediato é esta: até que ponto vai afinal o poder paternal face ao direito consagrado dos filhos. A contradição é óbvia mas pode ter um futuro risonho. Se atendermos ao caso concreto da Igreja, que ideia imporá um dia uma instância superior, como o Tribunal dos Direitos, aos Estado membros da UE sobre a vida iniciática nas famílias cristãs? Que esta viola aquele direito de consciência das crianças? Então e o direito dos pais? Qual é o seu limite em relacção aos valores de tolerância do Estado?


 


É esta a cara oculta do secularismo que vai saindo das sombras e mostrando o decálogo humanista obrigatório para o mundo moderno. Servirem-se das coisas públicas, as escolas ou até mesmo as ruas, para defender a  isenção de um Estado indefinível nas finalidades - é essa a sua finalidade, em si, a ser ensinada - é uma coisa; mas se nos entrarem nos templos e nos quiserem ilegalizar, como é previsível que aconteça, então é que o caldo entorna de vez! Tenhamos nós bispos à altura, um Papa forte e os rins cingidos.

publicado por Afonso Miguel às 22:38 | link do post | comentar