Não há liberdade sem norma. Não há norma sem critério.

O problema do paradigma ideológico actual, que se sobrepõe e engloba todos os que em seu redor gravitam, é a norma que o rege e o critério que, por sua vez, justifica essa norma. A virtude moderna da tolerância absolutizada, transformou-se na referência universal que define o bem e o mal, ou seja, que determina a "justiça".


 


Esta dogmatização divinizadora de uma ideia humana, de uma ideologia que não tende para a verdade mas para a conveniência isolada, é o inimigo a combater. O humanismo pagão, propagador da vontade de ser o homem a estabelecer essa verdade, baseia-se não no conhecimento da transcendência que dá sentido à natureza humana, mas num antropocentrismo que não passa pela contemplação da divindade (Deus como ponto de partida e de chegada, fonte e sustentáculo do meu sentido) e assenta na autojustificação. No fundo, assemelha-se a uma medida que se mede a si própria sem qualquer ponto de comparação que não sejam os seus valores de mensura. Sem nada que a confirme por fora, limita-se ao egoísmo.


 


Isto significa algo muito simples, mas que é propositadamente camuflado, como se a camuflagem fizesse parte da virtude. Significa, pois, que a tolerância tomou a posição de critério de uma norma que manipula a nossa liberdade. E não faz mais do que lhe é pedido, porque nenhuma liberdade vive sem norma, como também nenhuma norma vive sem critério.


 


Outra evidência é que a liberdade é, necessariamente, um campo desenhado com fronteiras. Neste caso, o mundo moderno definiu-as a partir de um sofisma que é a contradição genética daquela tolerância (contradição que lhe concede o disfarce): a suposta possibilidade da liberdade absoluta de consciência, aprisionando-a de imediato nessa visão ideológica de liberdade. Aquilo que nos habituámos a encarar como crimes de ódio, não é mais que a diabolização de tudo o que escape a esta norma e à concorrência para a sua implementação.


 


Conclui-se com isto que a tolerância não permite contraditório, o que é, só por si, contraditório com a sua aparente natureza. Não é portanto consequência de uma lógica racional, embora inspire hoje os processos democráticos dos países que se renderam à internacionalização de um sistema de valores completamente invertidos.


 


E é bom que nos convençamos que esta realidade levanta, obviamente, riscos para a sobrevivência da Igreja. Ser aceitável estabelecer, por exemplo, que ninguém se pode afirmar como depósito de verdade, constrange, em si, qualquer afirmação dogmática da Fé Católica, ilegalizando-a e justificando a perseguição aos cristãos. Conta aqui saber em que medida está a Igreja interessada e empenhada em não se deixar envolver mais pelas mentiras de um relativismo escravizante, que não nos permite ver a outra medida superior que a fundou. No limite, saber se a medida da Igreja continuará a ser a medida de Cristo, de tal modo que tenha de regressar a um estado primitivo, não de recuo litúrgico e doutrinário, mas de luta até à morte.


 


É esta a guerra santa do século XXI. É este o choque de civilizações. A nossa bandeira é o critério da Cruz, pela norma natural e moral da liberdade dos filhos de Deus.


 


publicado por Afonso Miguel às 20:31 | link do post | comentar