O erro da bruxa

Há dias, os telejornais abriram noticiando que uma mulher francesa matou oito dos seus filhos à nascença, sem que um aparente quadro clínico lhe justifique o crime. A ciência não encontra nenhum gene, nenhuma perturbação psíquica, nada que seja demonstrável num qualquer processo experimental e que explique a imoralidade inominável de Dominique Cottrez. E o mundo fica horrorizado, espantado, petrificado, a gastar latim em conversas de café que crucificam alguém que, vendo bem, errou apenas na avaliação dos meses e dos métodos.


 


Para os postulados do mundo moderno, o problema de Dominique Cottrez não foi ter assassinado oito crianças, mas ter ultrapassado o tempo legal para o fazer e não haver recorrido aos meios adequados. É isso que imprime novidade ao caso e faz manchete. A senhora preferiu esperar que os ditos deitassem a cabeça de fora, encarou-os face a face, sem cobardia, sufoco-os e enterrou-os no quintal. "O monstro", escrevem. Se tivesse ido a um hospital estando ainda de esperanças, livrava-se da barra do tribunal e tinha a Esquerda (e parte da Direita...) a enxugar-lhe as lágrimas de crocodilo, em nome do direito inalienável à livre escolha. "A vítima", diriam. O mal não foi propriamente matar, mas não o ter feito como o Estado o permite, o que não deixa de ser mais um case study de como funciona a moral jacobina: depende sempre das circunstâncias; as circunstâncias dependem sempre da vontade; a vontade depende sempre da arbitrariedade.


 


Entretanto continua o holocausto nos campos da eugenia silenciosa - coisas que não passam na televisão - enquanto se queimam umas bruxas na praça.


 


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Sobre o assunto: La casa de los horrores, de Juan Manuel de Prada.

publicado por Afonso Miguel às 21:18 | link do post | comentar