O porquê das coisas


Um post recente do Corcunda levantou um problema subjacente a grande parte da Direita e a um certo conservadorismo: considerar que as formas políticas do Estado e do governo dos povos têm em si justificações e fins que os distinguem. Ou seja, acreditar que, por exemplo, a monarquia é por si só capaz de proporcionar, desenvolver e manter um sistema de valores porque este lhe é irremediavelmente inerente.


 


É uma teoria errada que tem minado o mundo moderno. Nenhuma forma política de organização social detém a prática do Bem ou do Mal, na medida em que as aparências e os mecanismos reais que assume não são virtudes próprias que se bastem. Qualquer um desses regimes e governos é antes resultado de premissas que lhe são anteriores e não o contrário. Se assim não fosse, que diríamos das comunidades monásticas que tudo colocam em comum? Que são materialistas porque vivem num sistema comunista?! E das monarquias europeias? Que são Estados conservadores porque têm rei?!


 


O problema parece portanto residir nas prioridades da acção política. Se uns querem atingir a concretização ideológica, outros procuram nas formas comunitárias a obediência a algo transcendente; se uns têm o prisma numa cartilha de pressupostos nascidos da vontade - de muitos ou de poucos - para organizar as instituições como finalidade última, outros partem das finalidades últimas para avaliar a justiça das instituições. É por isso que o comunismo monástico é justo e o soviético não, bem como a monarquia tradicional católica será tendencialmente justa, mas não as actuais. Um rei ou um abade só exercerão verdadeira justiça se lhe encontrarem a fonte e só promoverão a paz se souberem qual é o seu critério perfeito.


 


A par disto, a Europa bebe hoje em todos os poços envenenados do Bloco de Leste, influenciando a própria Direita. Para a paz, encontraram a inquestinável tolerância; para a justiça, inventaram o absoluto igualitarismo. São estes os dois eixos ideológicos inquestionáveis em que assenta o projecto totalitário da UE - e que ironia o Tratado de Lisboa entrar em vigor num 1º de Dezembro. Segue uma linha de pensamento que dita que, sendo os homens iguais, rejeitando-se distinções morais resultantes de uma noção objectiva do pecado, devem permanecer limitados na esfera privada à satisfação das necessidades materiais, em prol da pacificação da massa e sob o juizo do Estado divinizado porque omnipresente.


 


Ora, é perante isto que os católicos se distanciam da quase totalidade dos monárquicos de hoje. Sabem que só há bom juizo em Cristo e que o que importa é que a Sua Lei reine, através do poder temporal. Sabem que só de Deus vem esse poder e não da falácia do número, do relativismo, do subjectivismo e do ateísmo militante que estes levam a cabo. Sabem, sobretudo, que só podem aceitar as formas se os os limites forem os correctos, como aceitariam uma democracia se orientada por uma Constituição Cristã.


 


A este propósito, e porque hoje se comemoram 369 da restauração da independencia, o António lembra bem estas palavras de Pio XI na encíclica Urbi Arcano, que nos monstram por que prisma continua a ser importante defender a Pátria contra as ameaças externas:


 


No dia em que os Estados e os governos regulamentarem a sua vida política quer interna quer externa, com base nos ensinamentos e nos preceitos de Jesus-Cristo, então, e só então, poderão usufruir de uma verdadeira paz, manterão relações de mútua confiança e conseguirão resolver pacificamente os seus problemas.


 


A Pátria só faz sentido se for de Cristo, e é esse sentido que tem de ser resgatado através da monarquia. Uma mesa de pernas para o ar continua a ser uma mesa, mas não serve as finalidades para que foi feita. Assim está Portugal.

publicado por Afonso Miguel às 18:53 | link do post | comentar