O porquê das coisas (?)

Hoje sinto-me irremediavelmente velho. Não como os trapos, que ainda não tenho idade física para isso, mas como os da saudável memória das ideias que nos levam o espírito à juventude de outrora. E quando assim sucede, costumo memorar sempre as felicidades de uma infância e adolescência estranhas para os tempos que correm, mas que me trazem à lembrança as saudades da inocência que queria desvendar alguns mistérios da vida.

Recordei há pouco, por breves instantes, um livro que me ofertaram em ocasião festiva: o "O Porquê das Coisas". Tratava-se de um pequeno "tratado" sobre o funcionamento de determinadas maquinarias e que procurava dar um enquadramento geral acerca das técnicas do mundo. Sempre estranhei que aquele livro tivesse tamanho título mas não conseguisse chegar ao cerne da questão: as razões ou os fundamentos para determinadas coisas existirem. Debruçava-se apenas sobre o funcionamento daquelas coisas, sem nunca tentar sequer explicar com que propósito funcionavam ou foram pensadas como importantes.

Aprendi algo importante com esse livro. Aprendi que o mundo moderno quer saber pouco sobre as consequências e as causas que as justifiquem. Fiquei ciente, ainda que pouco, naquela altura que o quadro mental que reina nas sociedades "evoluídas" interessa-se apenas pelo funcionamento prático, mas raramente sobre o Bem e o Mal da conveniência que servem e que, por isso mesmo, estas recrutam os homens práticos que Chesterton condena. Mais tarde, comecei a ler filosofia e matérias pouco ou nada praticáveis na moldura política que nos tenta dominar. Passei, sobretudo, a ser um homem dispensável por não saber mais separar a técnica daquilo que metafisicamente lhe dê sentido. Ou então sou eu que não compreendo que um livro infantil não possa abordar determinadas questões...

Valeu-me o Catecismo, que é coisa de velhos.
publicado por Afonso Miguel às 21:06 | link do post | comentar