O produto acabado do modernismo

Se alguém quiser saber o que é e pode dizer um padre moderno, por favor leia a entrevista que Tolentino Mendonça, o homem que discutiu Deus com Saramago, deu ao jornal i. Ele acha que Ruy Belo também pode ser um "livro de maus costumes"...


 


Um excerto (notas minhas a negrito):


 



Acontece-lhe sentir que há leitores que se aproximam mais de Deus pela via dos seus livros que pela Bíblia?

É verdade que algumas pessoas que lêem os meus poemas, e têm um distanciamento em relação à tradição cristã, me dizem algumas vezes que gostam de me ouvir e de me ler como poeta, unicamente. Eu respeito. Respeito porque os tempos de compreensão são coisas muito misteriosas e pessoais. Gosto de fazer coisas diferentes. Por exemplo, antes de vir para cá estava a ler a primeira carta de São Paulo aos Tessalonicenses, que vou dar numa aula amanhã [na quinta-feira], e antes mesmo de sair de casa li um poema do Ruy Belo que tem a ver com o ensaio geral desta peça que a Cornucópia vai mostrar sobre a morte de Judas. Acho que os textos sagrados não se esgotam na Bíblia (ah?). A Bíblia é um território sagrado, mas há novos textos sagrados (ah??). O poema que li do Ruy Belo é um texto sagrado (ah???... que tal propormos a Tolentino que leia Ruy Belo na Missa?).

Há quase a ideia de uma estética do espiritual. Sagrado porque belo?

Pela experiencia humana. É sagrado tudo aquilo que dá a ver o ser humano no seu estremecimento. Nesta coisa que é quase original de cada um de nós nascer a cada momento. A aflição, o tumulto, a convulsão, que mesmo quando estamos quietos parece que se adivinha, e que um poema tem obrigação de mostrar nitidamente, e os poemas do Ruy Belo mostram-no. (pronto, está explicado! que ninguém fique com dúvidas: Saramago também deve ter escrito alguma coisa sagrada)

Como um imperativo de sobressalto que serve de modelo de conduta.


 


Gosto muito dessa palavra sobressalto. Os cristãos estão agora a viver uma espécie de Primavera interior, que é a quaresma, em vista da Páscoa, e tenho pensado no sentido da palavra ressurreição. O verbo grego quer dizer "levantar-se", mas penso que mais do que levantar-se é um levantamento. Há uma espécie de insurreição naquele acontecimento de Jesus, que de certa forma marca o momento histórico e inaugura uma esperança, que é a possibilidade dos nossos pequenos sobressaltos, do sobressalto de cada dia, que Deus nos dá, de se transformar num grande levantamento, numa espécie de transfiguração. (e eu que pensava que era a esperança do Céu...)


 


Se eu preferir ficar aqui no jardim a ler um livro, em vez de ir à igreja, conseguirei esse mesmo levantamento?

Não tenho dúvidas disso (pois claro que não. sacramentos para quê?). Uma das grandes questões que se põem às comunidades cristãs é justamente viverem com fé (a sério?!). Estes dias dei comigo a pensar nisso, o que é ter fé? (já devia ter pensado no seminário, no mínimo) É ter fé em Deus, mas é também ter fé na palavra. É acreditar que uma palavra nova, uma palavra comum, pode estar inesperadamente investida de uma força maior. Quem diz uma palavra, diz um gesto. Um cumprimento entre duas pessoas... (confesso que é a coisa mais vaga que ouvi de um padre)



 


É de notar que este sacerdote questiona num dos seus livros se "o nosso mundo interior é uma cebola ou uma batata?". Só para enquadrar...

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publicado por Afonso Miguel às 15:03 | link do post | comentar