O reverso da medalha?

É certo que apoio, apoiei e apoiarei as conversações entre a FSSPX e Roma, mantendo-se nos pressupostos estabelecidos e aceites por ambas. A causa tradicionalista da Mons. Lefebvre em nada foi traida e é de especial importância que o diálogo agora encetado dê frutos abundantes na cátedra de Pedro. Bento XVI é o Papa certo para esta lógica de diálogo institucional com a Santa Sé. Contudo, tudo isto parece estar a ter consequências directas na FSSPX. Se virmos o caso de Portugal, onde esta tem um único priorado e visibilidade praticamente nula, contam-se pelos dedos os fiéis que conheci verdadeiramente empenhados na vida da fraternidade e na sua expansão no nosso país. Desses, grande parte afastou-se desde que a Missa Tradicional foi liberalizada em 2007, alegando que era agora possível atingir determinados objectivos, nomeadamente de restauração litúrgica, por outras vias. Alguns estão mesmo empenhados, por exemplo, na criação de uma associação Ecclesia Dei de leigos portugueses, entre os quais me encontro. E como é sabido, a FSSPX é muito crítica em relação a estas associações, o que limitava a vontade de fazermos pleno uso das possibilidades do Summorum Pontificum além fronteiras da fraternidade, aproveitando o espírito reformista deste pontificado.


 


Esta realidade tem feito muita gente pensar que a jogada foi bem orquestrada. Segundo determinadas teorias, o Papa terá reduzido a causa tradicional à reabilitação universal do Rito Tridentino e à catequese litúrgica do Novus Ordo; terá depois remetido todas as questões doutrinárias para o foro privado, escondendo-as nas tais conversações, num truque de ilusionismo barato. Não crendo que tenha havido qualquer uma destas intenções, a verdade é que existe um reverso da medalha muito pernicioso nesta situação, que tende a esvaziar os priorados da fraternidade de pessoas empenhadíssimas na defesa da tradição católica, ao contrário do previamente esperado. Algumas delas acusam hoje o clero da FSSPX de querer espartilhar a sua acção, enquanto o Santo Padre nos proporciona uma liberdade promissora através do Motu Proprio. Nada se vislumbra da grande enchente de fiéis que os mais optimistas previram. Pelo contrário! A FSSPX deixa fugir a grande chance de crescimento e arrisca-se a perder presença um pouco por toda a parte, enquanto florescem outras organizações em plena comunhão com Roma.

publicado por Afonso Miguel às 00:15 | link do post | comentar