O rótulo e a ideologia de pacote

Nunca percebi bem por que raio os jornalistas portugueses enveredaram todos pela intelectualice moderna do pensamento alinhado. Talvez pela simplicidade do chavão que ajuda ao título sensacionalista, ou pelo compadrio com as classes dominantes do esquema político e cultural que lhes dão o que escrever. No fundo, até compreendo, mas não consigo aceitar que os jornalistas se tenham vendido ao evidente quando, na democracia que tão bem defendem, poderiam ser um contra-poder fortíssimo ao que está instituído como convenientemente aceite.

Surge-me esta preocupação antiga depois de ter lido um post da jornalista Ana Clara (penso que seja da redacção d' O Diabo) em que esta se mostra indignada pela postura da Igreja brasileira no caso de uma menina de nove anos que se encontra grávida. Diz a profissional de informação que é "notícia grave" que esta queira "impedir que uma criança de nove anos, grávida de gémeos, como resultado da violação por parte do padrasto, ponha fim à gravidez". Mais, que "são as posições fechadas, bacocas e conservadoras de uma Igreja que se diz do século XXI e que não acompanha o sinal dos tempos e a sua evolução".

Esta apreciação dos factos demonstra à saciedade o quão baixo desceu a capacidade reflectiva de quem hoje fabrica jornais e, sobretudo, a total assunção da gratuidade com que os enchem. O que Ana Clara não entende, a par da maioria dos seus colegas, é que se pedem coerência à Igreja é normal que haja escândalo perante certas decisões por ela tomadas que partem de posições de fundo há muito defendidas. Que não compreenda que aquelas decisões procedam de uma reflexão que lhes é anterior, é "sinal dos tempos": hoje só dependem da conveniência. Mas que não haja esforço de tolerância pela liberdade de opinião, é atentar contra o próprio deus democrático que idolatram, na contradição a que nos habituámos.

Não conheço os factos que envolvem a situação mas não acredito que a Igreja tenha poder algum sobre os destinos de um cidadão do regime de Lula. Não acredito e não tem. O que tem é o direito de expressar revolta contra o verdadeiro crime: a violação, certamente fruto de uma desordem moral pessoal e familiar sempre atacada pela Igreja. Quanto ao resto, não há praticamente nada que se sobreponha ao valor da vida humana no seu pensamento. Nem mesmo a conveniência particular de ter que forçosamente seguir o dogma da "evolução" (seja para que lado for).

Isso choca? Ainda bem! Agora tratem do violador e dos problemas da Família e deixem a Igreja ser livre na sua bacoquice. Se a querem moderna e evoluída arriscam-se a ouvi-la defender a liberdade de orientação sexual do padrasto da menina (e já esteve mais longe...).
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publicado por Afonso Miguel às 22:31 | link do post | comentar