Olhe que sim!



 


Passaram ontem trinta e cinco anos do celebre debate em que Soares e Cunhal gastaram quase quatro horas de bobine à RTP a discutir a reforma agrária, as bombas, os petardos, os jornais e mais um sem número de coisas relativas ao PREC. Ficou conhecido como tendo sido decisivo para o abrandamento da actividade revolucionária do PCP. Diz-se, e ensina-se, que se o marxismo não vingou em Portugal foi porque o "pai da democracia" derrotou o secretário-geral comunista na troca de argumentos. Mas a grande questão do nosso tempo vai para além de uma vitória num qualquer jogo de palavras. É mais profunda, vai ao âmago: passámos ou não a ser uma sociedade regida por princípios ideológicos marxistas?


 


Que nos diz essa ideologia marxista? Diz-nos que, partindo da crença de que o transcendente não existe, todas as formulações morais acerca da condição humana não passam de isso mesmo, de meras formulações, e que são o resultado do processo histórico. A Família, a propriedade e até o próprio Estado, são convenções relativas ao tempo e ao espaço, sem qualquer tipo de referência objectiva e sem critério exterior. Não são características impressas na natureza do homem, mas construções ideológicas da vontade. Tudo é, para o marxismo, fruto da vontade, e é essa vontade que comanda os destinos da moral, não o contrário. E que vemos nós hoje em Portugal? Casamento homossexual; aborto; controlo/influência estatal dos grandes negócios; o poder usado como mero objecto de lucro partidário. Em suma, a transformação (ou a deformação) de todas as verdades inegociáveis.


 


É a tudo isto, a este materialismo em que vivemos, que os Soares da nossa praça nos dizem, como Cunhal outrora, "olhe que não, olhe que não". O problema é que até essa auto negação, académica e popularmente aceite, é parte da actuação do marxismo. Vemo-la constantemente na inutilidade dos debates do nosso tempo. O paraíso utópico do marxismo é que o ponto de partida de qualquer contraditório seja sempre a inexistência de contraditório no essencial, como em 1975.

publicado por Afonso Miguel às 19:30 | link do post | comentar