Os velhos do Restelo


Se me colhe a tempestade, e Jesus vai a dormir na minha barca, nada temo porque a Paz está comigo.


 


Há sempre quem não queira que as caravelas partam, ora porque se vão afundar no mar revolto, ora porque o mar revolto as vai engolir. A lógica é a do medo – de o incutir, entenda-se. E pior é quando essas vozes são as dos que estariam destinados a navegar, como acontece agora na FSSPX.


 


A Fraternidade está a atravessar uma fase muito importante da sua missão, a mesma que D. Marcel Lefebvre queria ver levada a cabo e, certamente, apoiaria agora incondicionalmente. Essa missão não é mais nem menos do que defender, junto de Roma e perante o mundo, a Tradição milenar da Igreja, sua teologia, doutrina e liturgia. No fundo, sua essência, que é a de obedecer sem recuos às palavras de Cristo: “ensinai-os a cumprir tudo o quanto vos mandei” (Mt 28, 19-20). Nessa senda, nunca quis seguir o caminho sectarista do sedevacantismo, resultado de uma cegueira induzida pelo demónio. Quis sim manter-se fiel ao primado de Pedro, defendendo-o na medida em que guardou em si grande parte da esperança do regresso àquilo que o Santo Padre tem o dever de, com o auxilio do Espírito Santo, saber preservar: o Reinado de Nosso Senhor, nos corações e nas sociedades.


 


As conversações com a Santa Sé só podem ir neste sentido. Trata-se de ouvir a FSSPX e apreciar uma posição incansável que - repita-se até à exaustão - foi definitivamente valorizada com o levantamento das excomunhões aos seus quatro bispos. A intenção não é fazer ceder, muito menos destruir a própria Fraternidade com exigências modernistas de um ecumenismo patético que em tempos foi rei. É antes dar um espaço privilegiado à discussão do que reconhecidamente importa debater. Um espaço que Bento XVI fez abrir para a causa da Tradição. É, sobretudo, fazê-lo em comunhão com ele e nunca contra Pedro. Diga-se, aliás, que renunciar a esta comunhão, que ainda se encontra em atitude denunciante da realidade conciliarista, é renunciar à própria Igreja e, consequentemente, à Fé Católica.


 


Mas não é de espantar que, a exemplo do que já aconteceu no passado, novos velhos se levantem no Restelo querendo fracturar a Fraternidade no momento crítico em que está. Quando se pede a união entre todos os sacerdotes e fiéis, o escasso sedevacantismo presente nas fileiras da FSSPX mostra-se, com todo o seu ódio pelo Sumo Pontífice e pelos seus esforços de reunião. Um ódio muito parecido aos dos progressistas e que ultrapassa as fronteiras de qualquer possibilidade de diálogo, entrando em questiúnculas pessoais e denotando vaidades pouco próprias do Cristianismo e próximas ao protestantismo. É o caso do Padre Juan Carlos Ceriani que se demitiu da Fraternidade em Agosto, enunciando uma série de razões desproporcionadas e que só podem ser encaradas como completamente contrárias ao sucesso da Tradição neste pontificado. Mais, razões que se evidenciam como inequivocamente cismáticas e que, por isso mesmo, devem ser tomadas fora deste âmbito "diplomático" com Roma, distinguindo-as claramente do trabalho e da renovada fidelidade da FSSPX.


 


Contudo, a atitude de Ceriani encerra uma contribuição louvável. Assumindo o que assumiu - ele e quantos o seguem ludibriados numa insanidade - afasta mais uma vez da Fraternidade o fantasma desse sedevacantismo, retirando motivos a quantos lhe colam infamemente essa marca. De facto, proporciona uma divisão de águas muito saudável, uma purga interna que há muito se esperava que fosse definitivamente consumada, expondo as reais intenções de determinadas pessoas e organizações que rondavam a FSSPX. Porque é bom que, de uma vez por todas, fique esclarecida a função histórica de Mons. Lefebvre, mesmo que à custa das trapalhadas de Satanás. Fica provado que há males que vêm para bem e que separam o trigo do joio, pelo que os que neste momento fogem da FSSPX estão, pelos motivos que apresentam, a sair da barca de Pedro. Ficam em terra, a resmungar...

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publicado por Afonso Miguel às 22:27 | link do post | comentar