"Panis Angelicus"


 


Panis Angelicus. É assim que São Tomás de Aquino define no Sacris Solemniis o Mistério da presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na espécie consagrada do pão: o "pão dos anjos", que "se torna pão dos homens" (Panis angelicus / fit panis hominum). Este pão que suporta e vela substancialmente a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, oferecido aos crentes como alimento espiritual perfeito, é hoje desacreditado e mal tratado por todas as permissões que o espírito do CVII impôs abusivamente aos fiéis, obrigando-os, em grande parte dos casos, a aceitarem práticas de comunhão sacramental absolutamente contrárias aos gestos rituais de reverência que a Igreja foi aperfeiçoando ao longo dos séculos. A recepção da partícula na mão generalizou-se, sobretudo a propósito de um arqueologismo bacoco e sem sentido histórico-litúrgico, bem como foram abolidas as "mesas da comunhão" onde o povo ajoelhava em adoração. A criação de um novo rito romano e a alteração genética que este introduziu no culto católico ocidental, foram os motores desta triste realidade hodierna.


 


O Santo Padre tem envidado esforços catequéticos na liturgia papal a propósito desta matéria. Não raras vezes, ou mesmo sempre, o vemos dando a Sagrada Comunhão a fiéis que ajoelham e a recebem na língua. O estabelecimento da Missa Tradicional como rito extraordinário também veio reconhecer, neste ponto em particular, a riqueza das formas e dos costumes anteriores ao concílio ecuménico, apresentando-as novamente como práticas da maior actualidade e urgência, nunca abolidas e, surpreendentemente, não conformes e tolerantes com as actuais. É por isso que, neste momento de tão grande esperança de restauração, nunca é demais relembrar o já celebre prefácio que Dom Albert Malcolm Ranjith, então Secretário da Congregação do Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, escreveu em 2008 para o Dominus Est de Dom Athanasius Schneider, que passo a transcrever.


 



Comunhão na boca, comunhão de joelhos


D. Albert Malcolm Ranjith, Secretário da Congregação do Culto Divino e da Disciplina dos Sacramentos.


 


Prefácio de D. Malcolm Ranjith, Secretário da Congregação do Culto Divino e da Disciplina dos Sacramentos à obra “Dominus Est -


 


No livro do Apocalipse, São João narra que tendo visto e ouvido o que lhe havia sido revelado, se prostrava em adoração aos pés do Anjo de Deus (cf. Ap. 22, 8). Prostrar-se ou ajoelhar-se ante a majestade da presença de Deus, em humilde adoração, era um hábito de reverência que Israel manifestava sempre ante a presença do Senhor. Diz o primeiro livro dos Reis: “Quando Salomão acabou de dirigir a Javé toda essa oração e súplica, levantou-se diante do altar de Javé, no lugar em que estava ajoelhado e de mãos erguidas para o céu. Ficou em pé e abençoou toda a assembléia de Israel” (1 Reis 8, 54-55). A postura da súplica do Rei é clara: ele estava genuflectido perante o altar.


 


A mesma tradição se encontra também no Novo Testamento onde vemos Pedro ajoelhar-se dian-te de Jesus (cfr Lc 5, 8); Jairo para Lhe pedir que cure a sua filha (Lc 8, 41); o Samaritano quando volta para agradecer-Lhe e a Maria, ir-mã de Lázaro, para Lhe pedir a vida em favor de seu irmão (Jo 11, 32). A mesma atitude de se prostrar, devido ao assombro causado pela presença e revelação divinas, nota-se não raramente no livro do Apocalipse (Ap 5, 8, 14 e 19, 4).


 


Estava intimamente relacionada com esta tradição a convicção de que o Templo Santo de Jerusalém era a casa de Deus e portanto era necessário dispor-se nele em atitudes corporais que expressassem um profundo sentimento de humildade e de reverência na presença do Senhor.


 


Também na Igreja, a convicção profunda de que sob as espécies eucarísticas o Senhor está verdadeira e realmente presente, e o crescente costume de conservar a santa comunhão nos tabernáculos, contribuiu para a prática de ajoelhar-se em atitude de humilde adoração do Senhor na Eucaristia.


 


Com efeito, a respeito da presença real de Cristo sob as espécies Eucarísticas, o Concilio de Trento proclamou: “in almo sanctae Eucharistiae sacramento post panis et vini consecrationem Dominum nostrum Iesum Christum verum Deum atque hominem vere, realiter ac substantialiter sub specie illarum rerum sensibilium contineri” (DS 1651).


 


Além disso, São Tomás de Aquino já tinha definido a Eucaristia latens Deitas (S. Tomás de Aquino, Hinos). A fé na presença real de Cristo sob as espécies eucarísticas já pertencia então à essência da fé da Igreja Católica e era parte intrínseca da identidade católica. Era evidente que não se podia edificar a Igreja se esta fé fosse minimamente desprezada.


 


Portanto, a Eucaristia – Pão transubstanciado em Corpo de Cristo e vinho em Sangue de Cristo, Deus em meio a nós – devia ser acolhida com admiração, máxima reverência e atitude de humilde adoração. O Papa Bento XVI recordando as palavras de Santo Agostinho “nemo autem illam carnem manducat, nisi prius adoraverit; peccemus non adorando” (Enarrationes in Psalmos 89, 9; CCLXXXIX, 1385) ressalta que “receber a Eucaristia significa colocar-se em atitude de adoração d’Aquele que comungamos (...) somente na adoração pode amadurecer um acolhimento profundo e verdadeiro” (Sacramentum Caritatis, 66).


 


Seguindo esta tradição, é claro que adotar gestos e atitudes do corpo e do espírito que facilitam o silêncio, o recolhimento, a humilde aceitação de nossa pobreza diante da infinita grandeza e san-tidade d’Aquele que nos vem ao encontro sob as espécies eucarísticas, torna-se coerente e indis-pensável. O melhor modo para exprimir o nosso sentimento de reverência para com o Senhor Eu-carístico seria seguir o exemplo de Pedro que, como nos narra o Evangelho, se lançou de joe-lhos diante do Senhor e disse “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!” (Lc 5, 8).


 


Ora, nota-se que nalgumas igrejas, tal prática se torna cada vez mais rara e os responsáveis não só impõem aos fiéis receber a Sagrada Eucaristia de pé, mas inclusive tiraram os genuflexórios obrigando os fiéis a permanecerem sentados ou em pé, até durante a elevação das espécies eucarísticas apresentadas para a Adoração.


 


É  estranho que  tais  procedimentos  tenham  sido adotados em dioceses, pelos responsáveis da liturgia, e nas igrejas pelos párocos, sem a mais mínima consulta aos fiéis, se bem que hoje se fale mais do que nunca, em certos ambientes, de democracia na Igreja.


 


Ao mesmo tempo, falando da Comunhão na mão é necessário reconhecer que se trata de uma prática introduzida abusivamente e à pressa nalguns ambientes da Igreja imediatamente depois do Concilio, alterando a secular prática anterior e transformando-se em seguida como prática regular para toda a Igreja. Justificava-se tal mudança dizendo que refletia melhor o Evangelho ou a prática antiga da Igreja.


 


É verdade que se se recebe na língua, se pode receber também na mão, sendo ambos órgãos do corpo de igual dignidade. Alguns, para justificar tal prática, referem-se às palavras de Jesus: “Tomai e comei” (Mc 14, 22; Mt 26, 26). Quaisquer que sejam as razões para sustentar esta prática, não podemos ignorar o que acontece a nível mundial em todas partes onde é adotada.


 


Este gesto contribui para um gradual e crescente enfraquecimento da atitude de reverência para com as sagradas espécies eucarísticas. O costume anterior, pelo contrário, preservava melhor este senso de reverência. Àquela prática seguiu-se uma alarmante falta de recolhimento e um espírito de distração geral. Atualmente vêem-se pessoas que comungam e freqüentemente voltam aos seus lugares como se nada de extraordinário se tivesse dado. Vêem-se mais distraídas ainda as crianças e adolescentes. Em muitos casos, não se nota este sentido de seriedade e silêncio interior que devem indicar a presença de Deus na alma.


 


O Papa fala da necessidade de não só entender o verdadeiro e profundo significado da Eucaristia, como também de celebrá-la com dignidade e reverência. Diz que é necessário estar conscientes “dos gestos e posições, como, por exemplo, ajoelhar-se durante os momentos salientes da Oração Eucarística” (Sacramentum Caritatis, 65).


 


Além disso, tratando da recepção da Sagrada Comunhão, convida todos para “que façam o possível para que o gesto, na sua simplicidade, corresponda ao seu valor de encontro pessoal com o Senhor Jesus no Sacramento” (Sacramentum Caritatis, 50).


 


Nesta perspectiva é de apreciar o opúsculo escrito por S. Excia. D. Athanasius Schneider, Bispo auxiliar de Karaganda, no Cazaquistão, sob o muito significativo título “Dominus Est”. Ele deseja dar uma contribuição à atual discussão sobre a Eucaristia, presença real e substancial de Cristo sob as espécies consagradas do Pão e do Vinho.


 


É significativo que D. Schneider inicie a sua apresentação com uma nota pessoal recordando a profunda fé eucarística da sua mãe e de outras duas senhoras; fé conservada no meio de tantos sofrimentos e sacrifícios que a pequena comunidade dos católicos daquele país padeceu nos anos da perseguição soviética. Começando desta sua experiência, que nele suscitou uma grande fé, admiração e devoção pelo Senhor presente na Eucaristia, ele apresenta-nos um excursus histórico-teólogico que esclarece como a prática de receber a Sagrada Comunhão na boca e de joelhos foi recebida e exercitada pela Igreja durante um longo período de tempo.


 


Creio que chegou a hora de avaliar a prática acima mencionada, de reconsiderá-la e, se necessário, abandonar a atual, que de facto não foi indicada nem pela Sacrosanctum Concilium, nem pelos Padres Conciliares, mas foi aceite depois da sua introdução abusiva nalguns países.


 


Hoje mais do que nunca é necessário ajudar o fiel a renovar uma fé viva na presença real de Cristo sob as espécies eucarísticas para reforçar assim a vida da Igreja e defendê-la no meio das perigosas distorções da fé que tal situação continua a criar.


 


As razões de tal medida devem ser não tanto acadêmicas, quanto pastorais – espirituais como litúrgicas –, em suma, as que edificam melhor a fé. D. Schneider neste sentido mostra uma louvável coragem, pois soube entender o significado das palavras de São Paulo: “mas que tudo seja para edificação” (1 Cor 14, 26).


 


+  Malcolm Ranjith,  Secretário  da  Congregação do Culto Divino e da Disciplina dos Sacramentos



 


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De facto, uma das consequências lógicas da reabilitação formal da liberdade universal da Missa de Sempre é, sem dúvida, a declaração de legitimidade absoluta da antiga tradição litúrgica em que esta era oficiada, sem a mancha dos abusos que o Novus Ordo fez introduzir por força da vontade de espíritos mais libertinos. A questão da comunhão na mão é talvez o caso mais assinalável. E a incompatibilidade total com esses abusos significa que, na realidade, a Missa Tridentina não pode ser palco de tamanhos espectáculos de profanação, como o vídeo que se segue demonstra estarem a ser repelidos, e bem, da liturgia extraordinária. Repare nas últimas imagens desta Missa celebrada na Catedral de Bolonha no dia 4 deste mês:


 


publicado por Afonso Miguel às 21:03 | link do post | comentar