Para além da beleza

Altar neocatecumenal: a Menorah substitui a Cruz

A propósito da recente e triste aprovação, por parte da Santa Sé, de uma série de pretensas práticas rituais iniciáticas do Caminho Neocatecumenal (CN) - uma seita esotérica pseudo-judaica infiltrada na Igreja - lembrei-me que um amigo da Tribuna questionou no facebook se a "Missa" que esses senhores celebram não pode ser considerada um sub-rito do Rito Ordinário. Quem já teve a infelicidade de assistir a uma dessas celebrações, como eu, sabe que a pergunta faz todo o sentido.


 


De facto, trata-se de uma "liturgia" muito particular que não só destrói toda a evolução contínua da Tradição Católica, como arruína o próprio Rito Ordinário, aproveitando as portas que este abriu à subversão da essência sacramental que encerra, transformando-o em algo completamente irreconhecível. Ao ultrapassar o desleixo ou simples mau gosto, daqueles que imperam em todo o lado, o CN leva a cabo uma das mais profundas e bem sucedidas experiências da revolução cultual, desfigurando a lex orandi e, consequentemente, a própria lex credendi. Inserem os seus membros, grande parte jovens, no sectarismo que lhes é conhecido, como se a universalidade eclesial fosse um desvario pré-conciliar persecutório e a diversidade de caminhos, ainda que desmedida, estivesse no patamar do dogma.


 


O Santo Padre bem os alertou para esta dimensão diversa mas, ao mesmo tempo, una da Igreja ("comunhão em todo o Corpus Ecclesie"). Desconfio, para não dizer que estou certo, de que ainda assim o CN continuará e reforçará a senda de profanação do Rito Ordinário, como se ele não bastasse nas suas formas actuais e quase omnipresentes de defecção da Fé. E por isso não, não se trata de um sub-rito, porque vai mais além. É uma forma absolutamente sectária e não católica de encarar a religião. Não passam pois de mais um bando de marginais que, podendo fundar a sua própria estrutura protestante, decidiram querer reescrever a nossa ("Neocatechumenal Way as a Christian initiation, in its doctrine, liturgy and its stages").


 


Portanto, a questão deve centrar-se não tanto no gosto estético do rito mas no que ele verdadeiramente compreende, demonstrando-o visivelmente ao mundo. É certo que uma "Missa" neocatecumenal acaba por ser a coisa mais horripilante para qualquer pessoa de bom gosto, mas a liturgia protestante regra geral não o é e nem por isso passa a ser boa, recomendável e salutar. Antes pelo contrário. Porque a beleza não é um significado em si, mas um significante de algo que lhe confere sentido.


 


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Na imagem: altar neocatecumenal, em que a Menorah substitui a Cruz.

publicado por Afonso Miguel às 00:17 | link do post | comentar