Paradoxos

A modernidade está cheia deles. Um dos mais populares é considerar-se que a distinção, quase honorífica, de algo ou de alguém com um dia que lhe seja dedicado é uma manifestação de integração igualitarista. Por exemplo, é paradoxal julgar-se que a existência de um dia da mulher é comemorativa da igualdade de géneros alcançada pelo modernismo, quando não há equivalente dia dedicado ao homem. E quem diz da mulher, pode dizer do orgulho gay, sem que haja o do orgulho heterossexual, ou o mês da história negra, sem que alguém se lembre de decretar um sobre a história branca, amarela, ou cor-de-rosa às bolinhas. O facto é que, por mais contraditório que pareça promover-se a "igualdade" com a distinção, não se trata de lembrar aqueles que, por um qualquer motivo, foram considerados diferentes pelos nossos pais mas estão agora legalmente enquadrados. Trata-se sim de assinalar a diferença ainda e sempre existente, de tal modo que se alimente o móbil de todos os objectivos que à sua alegada extinção estiverem associados. E trata-se igualmente de manter as diferenças acesas, de maneira a que esses objectivos sejam sempre aquela meta (in)alcançável - porque, por vezes, naturalmente impossível - que mantenha o colectivo entretido na corrida.


 


É disto que falam os "amanhãs que cantam". É a isto que se chama de ilusão. Os "amanhãs" serão sempre "amanhãs", propositadamente, como se o caminho não tivesse um fim ou o fim fosse imaginário. É a isto que se chama ideologia, ou marxismo se preferirem. Morgan Freeman sabe-o.

publicado por Afonso Miguel às 15:05 | link do post | comentar