"Pormenor"?!

A revista Pública pôs hoje nas bancas uma entrevista a D. José Policarpo, às portas da visita de Bento XVI. Entre outros assuntos, o Patricarca de Lisboa abordou a reaproximação de Roma à FSSPX. Destaco as seguintes passagens, com alguns apontamentos meus:


 



No início do pontificado, o Papa falou várias vezes na prioridade que queria dar ao diálogo ecuménico. Houve pequenos passos conseguidos com os ortodoxos, mas não deveria ter acontecido algo mais nestes cinco anos?


 


Esse dinamismo não é específico deste pontificado. João Paulo II foi também extremamente empenhado nessa questão. É evidente que os passos não podem ser dados só pela Igreja Católica, têm de ser também pelos outros. Não tem sido fácil, embora se tenham dado passos importantes que, aliás, passam despercebidos à grande mediatização. Estou a pensar num acordo com as igrejas luteranas sobre o sentido da justificação, que era uma questão crucial na teologia das duas igrejas e que foi celebrado ainda por João Paulo II. Neste Papa, gostaria de sublinhar a grande preocupação em não complicar a desunião que as diferentes interpretações do cristianismo foram gerando ao longo dos séculos. Tem sido feito um esforço em relação ao grupo que costumamos identificar com monsenhor Marcel Lefèbvre, o que tem sido alvo de críticas, porque há sectores católicos que acham que é ir longe de mais para salvaguardar a unidade da Igreja. O problema está longe de resolvido. Qual é a verdadeira génese destas especificidades que depois levam à ruptura da comunhão? Muitas das manifestações de diversidade que surgem hoje na Igreja teriam dado cismas em séculos passados. Hoje não, e esse é um dos grandes triunfos da Igreja dos últimos tempos, o que traz dificuldades internas. Na Igreja, como no resto da sociedade, a unidade na uniformidade é mais cómoda...


 


Mas o que se pretende neste caso? Não se está a procurar a unidade a todo o custo com um grupo que não a quer fazer e que anda há 40 anos a dizer que não aceita o Concílio [Vaticano II]?


 


E isso ficou muito claro num consistório a que o Papa nos convocou para analisar a questão...


 


E onde a maioria dos cardeais era contra estes gestos...


 


Diria que foi um diálogo muito fraterno, onde ficou absolutamente claro que o lado de lá tinha de aceitar globalmente o Concílio Vaticano II. Não se trata de discutir se se celebra ou não em latim, é uma questão de acreditar na Igreja. Os aspectos que têm dado mais polémica são os que parecem mais retrógrados e fundamentalistas, como o latim nas celebrações, mas são pormenores.


 


Mas são também posições como esta que levam a que este Papa seja visto como conservador...


 


É, por esses casos pontuais. Neste caso concreto dos lefebvrianos, o problema é mais fundo do que isso. Não se resolve se não se aceitar um pluralismo nas expressões, desde que esteja garantido o essencial.


 


(Como se a FSSPX e todos os tradicionalistas que a têm apoiado não tivessem acreditado, em algum momento da História, na Igreja. Como se tivessem entrado em cisma. Como se fossem sedevacantistas. Não. A luta que levam a cabo prende-se precisamente com a aceitação incondicional da sua Doutrina e da sua Missão, denunciando, por isso, os erros que o CVII introduziu e fez crescer - preocupações comuns às do Santo Padre. Por outro lado, especialmente em Portugal, o assunto prende-se - e muito - com a tal "retrograda" e "fundamentalista" Missa Tridentina. Aliás, não se percebe como é tão marginalizada e impedida pelos nossos bispos se, afinal, parece ser considerada como um "pormenor". Não se percebe porque colocam tantos entraves ao "pluralismo de expressões", se as ordens da Santa Sé são no sentido de promover o Rito Tradicional activamente, como bem tem insistido Monsenhor Castrillon Hoyos e Monsenhor Nicola Bux. Não se percebe mesmo, a não ser à luz do modernismo radical que perpassa por todo o episcopado luso.)


 


[...]


 


Como olha para Obama?


 


É um fenómeno daqueles que aparecem de vez em quando nos Estados Unidos. É muito parecido com o fenómeno Kennedy, nos anos 1960. Parece bom homem, é inteligente, um grande orador. É cedo para avaliar, mas algumas das teses dele são apaixonantes e é preciso coragem para as aplicar num país daqueles. Nos EUA, de vez em quando, aparecem ideias messiânicas que galvanizam as massas e depois há por trás o Estado que é silencioso, pragmático, que agora é militar e condiciona o poder todo.


 


(Desconhece D. Policarpo que Obama é um dos maiores defensores do aborto livre e do casamento entre pessoas do mesmo sexo?!)


 


[...]


 


É a formação que está em causa? Não são o celibato e a relação com a sexualidade?


 


Em relação à questão do celibato... Durante muito tempo, isto [a pedofilia] não estava tipificado como está agora. As anormalidades acontecem em todos os horizontes, quando as pessoas são casadas ou solteiras ou celibatárias, porque acontece quando a pessoa não integrou a sua sexualidade. Virem-me dizer que o fim do celibato resolvia o problema... Pelo contrário, o celibato vivido ajuda [a resolver] o problema. O celibato é uma experiência de delicadeza contínua para com as pessoas todas, é uma experiência maravilhosa, que ajuda no respeito pelas crianças. Tenho mais a certeza disso do que no caso de uma pessoa mal casada, com frustrações. Não excluo que o ser casado ou não ser casado não tenha indirectamente a ver com isto. Mas o que está por trás é a harmonia da experiência de viver a dedicação às pessoas, sem excluir a ternura, no ideal de uma virgindade consagrada. Isso ajuda com certeza.


 


[...]


 


Há problemas com a laicidade?


 


A Igreja não tem problemas nenhuns com a laicidade do Estado. Há uma dimensão secular, mas que pode ser inspirada por outros princípios, como a generosidade cristã. Às vezes irrita-me quando se tenta estender a laicidade do Estado à laicidade da sociedade. A laicidade do Estado é uma neutralidade positiva, de respeito por todos. Mas, como dizia o doutor Mário Soares, não se pode tratar de forma igual o que é desigual. Não pode haver crucifixos nas escolas, mesmo que as famílias e os alunos o queiram? Esta laicidade estendida a todas as manifestações da sociedade não é uma compreensão moderna da laicidade, é uma compreensão jacobina da laicidade.


publicado por Afonso Miguel às 16:54 | link do post | comentar