Pouco borrifanço total


A possibilidade de casamentos entre homossexuais deixou de me importar. O matrimónio é um sacramento, um compromisso a três: homem, mulher e Deus. Não é um contrato perante um Estado que não representa uma referência comunitária justa. Até podem passar a unir-se com os pantufas lá de casa que me estou pouco borrifando. Vai na volta, os bichanos acabam por se fartar da comida do dono e decidem, em nome dos direitos dos animais, divorciar-se unilateralmente. Penso mesmo que seria um progresso civilizacional, o símbolo de uma sociedade evoluída, de olhos postos no futuro e sem medo da diferença. Um sonho, o paraíso sobre a terra, o rebentar dos grilhões que prendem a condição humana ao trato sexual com os da mesma raça. Uma espécie de "fascismo nunca mais" triunfante.


 


E estou-me eu pouco borrifando e está a Igreja portuguesa. Dizem que remetem o assunto para uma reunião daqui a uns dias, a ver se falam em uníssono e não há estrilhos. Vai-se a ver, a doutrina sobre o assunto ainda não deve ser suficientemente clara. Mas D. Ilídio, prezado bispo de Viseu, o que é fã da borrachinha (lembram-se?), já se desbocou: diz ele que há assuntos mais importantes, tipo a pobreza e a fome e o desemprego e o raio que o parta, e que é por isso que isto agora de vir com o tema do emparelhamento dos paneleiros não faz sentido nenhum. Não é prioritário. Se estivéssemos em tempo de vacas gordas, vá lá, ainda se compreendia. Mas com estas contas públicas? Com as fábricas a fechar? Com a asfixia democrática? Agora não, não dá jeito! - grita ele e gritam outros, como ele, episcopais reverências destas terras portuguesas.


 


Para ajudar à festa do pouco borrifanço (e ainda agora começou!) apareceu o Cláudio Anaia, esse homem que deixa sempre saudades, a protestar contra o timing da coisa, a dizer que não se admite que depois levem os putos dos orfanatos para casa e que, por isso, por ser incompreensível, inaceitável e intolerável, propõe, ele e os "socialistas católicos" (aqueles que se estão pouco borrifando para Cristo) que... seja feito um referendo. Do género, o povo decide... porque, enfim, é matéria aberrante e deve verificar-se se existe um sentimento nacional nesse sentido.


 


Pois eu, perante isto, digo-vos que ponham os olhos no Doutor Francisco Louçã, o incomparável visionário, que afirma, quiçá com aqueles r's tão à tribuno, que o poder plebiscitário iria impedir - e vejam só o alcance! - que as pessoas pudessem escolher livremente sobre si próprias. Não há discussão para ninguém e "mai nada"! É avançar no parlamento e pronto, que o povo é quem mais ordena.


 


Ora digam lá os meus caros amigos se, com deputados da nação prontos a trabalhar e mentes tão brilhantes a defender a civilização, não é caso para nos estarmos todos a pouco borrifar (até rima e podia ser um slogan), descansadinhos da silva e a ocupar a cabecinha com os problemas verdeiramente graves da república dos contratos. Claro que é! Nós e o Papa, que está quase aí a chegar...

publicado por Afonso Miguel às 22:43 | link do post | comentar