Princípio, meio e fim

O post sobre a tecnocracia feita leitura infantil pode parece, ele mesmo, algo pueril. Mas a preocupação de fundo que justifica o postal é mais profunda do que qualquer visão redutora que sobre ele se possa lançar.

Um dos grandes problemas do homem moderno é estar demasiadamente absorto com o futuro. Isto é, está ocupado com o que não existe ainda, nem sabe se existirá, sem nada procurar no passado que enforme a existência no tempo que há-de vir. E isto acontece porque esse homem, tecnocrata por natureza social, se diz absolutamente revolucionário porque absolutamente positivista.

Esta definição sinistra, que atravessa a grande maioria dos que se dizem hoje políticos, é uma contradição em si: um revolucionário positivista, altamente crente na capacidade isolada do homem, não acredita em nada de bom proveniente do passado, o que lhe atesta, logo à partida, uma profunda descrença nesse mesmo homem. Alguém que ache que toda a história se compila no "explorador versus explorado", por exemplo, para além de não conhecer a própria história - por incapacidade ou desonestidade - acredita que até ao tempo presente nada se soube fazer de bom para terminar essa "escandalosa situação". Se isto não é desacreditar totalmente a capacidade humana para o bem, não sei o que será! A menos que o progressista e revolucionário não queria o bem, ou nem dele queira saber, ou mesmo o negue como conhecimento e prática alcançáveis em comunidade - o que também é contraditório com o seu positivismo.

Contradições vistas, é nelas que vivemos. E perguntamos com legitimidade: que fazer para terminar com tal estado de alma colectivo? Que medidas tomar para que o futuro seja então algo mais do passado do que simples recordação longínqua?

Parece-me que, antes de mais, há que não permitir que a memória seja inquinada e distorcida pelos objectivos do positivismo. Quando o ideal se sobrepõe à verdade das coisas - acontece que a história é hoje ensinada sob o signo da transmissão da crença ideológica, verdadeira religião laica - e quando a doutrina é desprezada em detrimento de tecnocracias vazias de sentidos metafísicos, estamos no caminho de Orwell; quando grandes potencias mantêm a argamassa social à custa de inimigos externos, pintados e repintados consoante a conveniência daquela ideologia, de forma a garantir o medo, que é o único meio de união que têm, estamos mais uma vez no caminho de Orwell; quando, enfim, estamos sempre cercados de demagogia sobre matérias que deviam pertencer à filosofia, entramos definitivamente na senda orwelliana de um futuro sem passado que não seja o inventado.

O que é fundamental recuperar é a noção de que sem princípio, meio e fim, e sem a compreensão de que este processo é necessariamente envolvido em qualquer lógica mental humana para justificar razoavelmente as coisas, nada feito. Sem perceber que princípio é causa de meios que levem a consequências que concorram para o bem, nunca chegaremos ao bem. No fundo, sem doutrina que enquadre a distinção do bem e do mal - balizas que só a transcendência desse bem e desse mal nos pode revelar à inteligência e ao coração - não existe linha condutora que consiga dar sentido à técnica.

Penso ser também nesta esperança que o Corcunda diz que não pode haver ciência fora do enquadramento moral do Cristianismo. E falo em esperança porque é aquela virtude que engloba o que aqui defendo: a esperança cristã também é saber que a promessa de Deus nos vem do passado pela tradição, com ela se faz presente na Igreja e assim se alcançam as bases para um futuro de bem. Sem o Cristianismo torna-se, portanto, impossível que a ciência encontre critério para a sua acção, a não ser na técnica e pelo progresso indiscriminado e relativista dessa técnica sem referências absolutas.

É necessária doutrina. Os monárquicos precisam de doutrina. Uma doutrina que lhes retire a sede de estrangeirismo políticos, que mais não são do que tecnocracias políticas. Um doutrina que lhes dê princípio, meio e fim para os meios que defendem para alcançar o bem e, sobretudo, lhes ensine que esse bem é a única coisa que importa conquistar, a única coisa que deve ser, e que é esse o objectivo da monarquia: restaurar o bem. É também por isso, e só por isso, que melhor serviria Portugal, repondo-lhe um princípio, um meio e um fim.
publicado por Afonso Miguel às 19:54 | link do post | comentar