Razões para não votar PSD e o injustificado mal menor

A conversa é sempre a mesma. Em tempo de legislativas, sejam normais ou por encomenda, o importante é tirar quem está e votar em quem melhor lá pode chegar. Em Portugal, isto significa escolher entre um Partido Socialista de prática social-democrata e um Partido Social-Democrata de ideias mutantes. Pelo meio, ouvem-se outras vozes envelhecidas pelo tempo ou pela história dramática das experiencias políticas do século XX, mais uns arraçados de homens de valores...


 


Seguindo esta tradição democrática, alguns conhecidos dizem-me que nestas eleições devia pôr a cruzinha no PSD, porque a Manela é mulher de valores, o engenheiro (?) não pode continuar no poder e porque não podemos permitir paneleiros casados, ou a fingir que são pais, ou no parlamento... E ainda me dizem que, por isto e por muito mais, é importante alternar a coisa para devolver os dinheiros públicos do Orçamento de Estado às empresas laranjas.


 


São conselhos que me preocupam. Não pelos conselhos em si - entram e saem a mil, de tão falsos - mas por quem mos dá, porque são pessoas ditas "de Direita", "conservadoras", que teimam em ver na líder do PSD uma espécie de Tatcher à moda portuguesa e babam perante a hipótese de um governo da dama de ferro das finanças. São também "católicos", algo amnésicos, claro está, já que se esquecem que Ferreira Leite escolheu um senhor chamado Paulo Rangel para levar um "cristianismo progressista" aos meandros da Europa federal; já que se esquecem que o valor da vida é para o PSD uma questão de consciência pessoal; já que se esquecem também que o casamento homossexual segue o mesmo caminho, por mais que a presidente do partido diga que não comenta coisas que não existem. São pessoas que não têm memória e alinham pelo jogo de manipulação do regime, que é a destruição da política e a ascensão da propaganda. Ou então, são só mais uns tristes fingidores da religião que, por omissão e deturpação da Igreja em determinadas matérias, aliam um forte desconhecimento com um profundo estreitamento intelectual.


 


É esta a ponta do iceberg que nos impede, como católicos tradicionais, de votar no PSD. São reservas que podem ser transportadas para a quase totalidade das forças ideológicas  (se resta algo das fontes marxistas...) que nos vão aparecer nos papelinhos do processo democrático. Até o PPV, que aparenta uma catolicidade sem antecedentes, se visto à lupa apresenta as mais perturbantes contradições e ilusões. Por isso, é provável que vá à urna escrever um poema reaccionário, só para dar uso ao material. Para nós não há mal menor neste regime ilegítimo que justifique uma cruz. É que cruz já basta a que nos fazem carregar...

publicado por Afonso Miguel às 23:04 | link do post | comentar