Referendar o quê?

O pedido de um referendo ao regime continua a ser ridículo. Como escreve VL no Jantar das Quartas, não há nenhuma proposta real que seja substancialmente diferente daquilo que já temos. Qualquer consulta popular neste sentido redundaria numa estúpida disputa entre quem quer que a chefia de estado da república seja plebiscitária e outros que a defendem hereditária. Quanto ao resto, ou seja, quanto a ideias que sejam verdadeira alternativa ao sistema, os pontos coincidem tanto entre republicanos e monárquicos demoliberais que a simples tentativa de distingui-los remeter-nos-ia para os inevitáveis e muito ajustados estereótipos.


 


Por outro lado, a questão levanta ainda outro problema aos monárquicos que gostavam de ver valores em discussão e não apenas aparências, suposições e comparações estrangeiras de conveniência: levar o regime a eleições é negar-lhe a sua urgência histórica e moral para a remeter para a vontade das maiorias. Isto geraria um contra-senso incompreensível que os tradicionalistas não podem aceitar. A monarquia deve servir precisamente para garantir que determinadas premissas não possam ser subtraídas à comunidade por processos meramente quantitativos, o que afasta em absoluto a hipótese de aplicar o inverso à sua legitimidade.


 


Pedir à república que se coloque em pé de igualdade com outro regime perante a decisão popular, através de uma alteração à Constituição que o permita, chega mesmo a ser infantil. Como diz ainda VL, se existisse um movimento sério e forte no sentido da mudança, não seria a Assembleia, o Governo ou a Presidência desta república a criar as condições para que pudesse vingar politicamente. Antes pelo contrário! Aliás, se os monárquicos demoliberais conseguem ter voz na imprensa e na internet, e até mesmo associar-se livremente, só é sinal de que, no quadro mental e de acção em que se situam, não apresentam ameaça à continuidade da nossa realidade.

publicado por Afonso Miguel às 17:30 | link do post | comentar