Tudo nas mãos da FSSPX [IV]

No blog Messa in Latino, sempre bem informado, revelações sobre o conteúdo do Preâmbulo Doutrinal. A tradução no Fratres in Unum:


 



Por Enrico – Messa in Latino | Tradução: Giulia d’Amore.


 


No último dia 14 de setembro, foi apresentado a Mons. Fellay, convocado a Roma para buscar uma plena reconciliação, um “Preâmbulo Doutrinal” como base para o acordo. O texto, porém, não foi publicado, por pelo menos três razões: para permitir aos responsáveis pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X um exame mais sereno, sem a pressão de quem viria nele, de alguma forma, armadilhas e cavalos de Tróia até no número de vírgulas; para preparar uma meditada ilustração ao Capítulo Geral da Fraternidade; e finalmente… para permitir, quem sabe, algumas emendas limitadas, lá onde uma passagem ou um adjetivo parecesse de fato pouco atraente à FSSPX.


 


Adquiridas as devidas informações e mesmo querendo respeitar, pelas mesmas razões já expostas, o vínculo de confidencialidade que protege o conteúdo do “Preâmbulo Doutrinal”, não queremos privar os nossos fiéis leitores de algum elemento de juízo suplementar.


 


Posso lhes dizer que, pessoalmente, eu não teria problemas em assinar o Preâmbulo. Mas eu não sou o Superior da FSSPX; ainda bem, diriam muitos… No entanto, constato múltiplas razões pelas quais aquele texto é uma surpresa positiva (digo surpresa porque Mons. Fellay, indo ao encontro, esperava uma proposta exclusivamente jurídico-canônica, ao invés de um texto doutrinal). Ousaria dizer que a relativização do Concílio, que este Preâmbulo permite, representa uma verdadeira vitória para a Fraternidade, um ponto extremamente significativo, como (se não mais) a solene afirmação do Motu Proprio segundo o qual a antiga liturgia nunca havia sido revogada. Mas a vitória para Mons. Fellay não significa a derrota de Roma; como eu já tinha escrito, um acordo – como também a demolição do “superdogma” conciliar – representa uma solução win-win[1], onde ambos os lados têm muito a ganhar.


 


O conteúdo do Preâmbulo, que, em última análise, é um documento muito sintético, pode ser resumido essencialmente em dois pontos. Começamos pelo segundo, porque é coisa simples: em poucas palavras, a FSSPX deve mudar os tons e expressar o que tem a dizer de um modo respeitoso e filial, além de colaborar lealmente com todos os outros grupos do Corpo Místico. Em linguagem clérigo-teológica, isto é chamado de “sentire cum ecclesia” [2].


 


O primeiro ponto do Preâmbulo – por outro lado, o mais importante – é a reproposição do conteúdo do cânon 750 do CIC [3], ou seja, da necessidade para um católico de aceitar o ensinamento do magistério segundo os graus de adesão previstos por aquele artigo e pela Carta Apostólica Ad tuendam fidem [4] de João Paulo II. Em resumo, há diferentes níveis de vinculabilidade ao ensinamento do Magistério: como esclarecia uma Nota Explicativa do, então, Cardeal Ratzinger, quando, em função de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé: há verdades que a Igreja proclama divinamente reveladas e são, portanto, irreformáveis e devem ser acolhidas com “fé teologal”. Quem não crê não é católico. Tais são os dogmas de fé, sobre os quais, no entanto, a FSSPX não tem problema algum (Mons. Fellay fazia o exemplo do Dogma Trinitário). Idêntico assentimento de fé firme (e idêntica ausência de problemas para a FSSPX) concerne aquelas doutrinas sobre a fé ou a moral não fundadas diretamente nas Escrituras, mas infalivelmente ensinadas pela Igreja, porque assim proclamadas ou porque sempre repetidas pelo Magistério. Exemplos deste último tipo (que se leem justamente na Nota Explicativa) são a impossibilidade das ordenações de mulheres, a proibição da eutanásia, a canonização dos santos.


 


Exigem, no entanto, um mero “religioso assentimento da mente e do intelecto” aqueles ensinamentos do Magistério do Pontífice ou do Colégio dos Bispos que não se apresentam definitivos (talvez porque contradizem ensinamentos precedentes: por exemplo – o exemplo é nosso – a proibição de empréstimos a juros). A Nota da Congregação para a Doutrina da Fé se abstém prudentemente de fazer exemplos deste tipo, talvez porque seria como desclassificar os ensinamentos que viessem a ser elencados nesta categoria. O fato é que os ensinamentos mais controversos do Concílio, bem como o Magistério sucessivo que repetiu aqueles ensinamentos, não poderiam ascender (admitindo-se – e, como veremos, não aconteceu – que o alcançasse) a um nível de vinculatividade superior a este, uma vez que o Concílio declarou não querer definir nenhuma nova “verdade”, e que o próprio fato de serem proposições – se não em “ruptura”, pelo menos em “reforma” respeito ao Magistério anterior – as priva, inevitavelmente, de todo carácter de definitividade.


 


Na prática, pede-se à Fraternidade de assinar a profissão de fé à qual é obrigado todo católico; a coisa parece muito viável. Mas alguém poderia temer que aquela obrigação de “religioso assentimento da mente e do intelecto”, se aplicada a certos ensinamentos do Concílio, possa ferir, mesmo que não anule (em certas condições, pode-se discordar – mas não descaradamente – dos ensinamentos não definitivos), o direito de crítica ao Concílio. E aqui está a magnífica novidade.


 


Conforme reporta o comunicado oficial da Santa Sé, o Preâmbulo deixa, “à legítima discussão, o estudo e a explicação teológica de expressões singulares ou formulações presentes nos documentos do Concílio Vaticano II e do Magistério sucessivo”. Note-se que o objeto desta discussão, que é expressamente reconhecida “legítima”, não é apenas as interpretações dos documentos, mas o próprio texto destes: as “expressões ou formulações” usadas nos documentos conciliares. Estamos, portanto, muito além da mera hermenêutica: torna-se lícito criticar as próprias palavras (e não apenas o significado ou a interpretação dessas palavras) que os Padres conciliares escolheram para compor os documentos. Se as palavras usadas no Preâmbulo e, portanto, no comunicado oficial têm um sentido, estamos diante de uma revolução copernicana na abordagem do Concílio: ou seja, a mudança de um mero plano exegético para um substancial (este é um ponto que parece ausente na, não obstante, boa análise de Dom Morselli postada neste blog). No discurso de 15 de agosto, Mons. Fellay dizia que, para Roma, o Concílio é um tabu e que, portanto, ela se limita a criticar o invólucro externo, ou seja, a interpretação. Agora, porém, será lícito enfrentar também o núcleo. O que implica também que, aquelas passagens textuais controversas,  enquanto livremente discutíveis, não requerem sequer aquele grau menor de adesão que consiste no “religioso obséquio”.


 


No mesmo sentido se exprime também o Abbé Barthe [5], especialista conhecedor das coisas eclesiásticas, neste iluminante artigo que vos exorto a ler, como também o vaticanista do Le Figaro.


 


Lembrar-se-ão como, nos últimos meses, os graves ensaios de um Gherardini [6] ou de um de Mattei [7] tenham recebido apressadas condenações (em vez de aprofundadas e meditadas críticas), com base na apriorística acusação de colocar-se contra o Papa, que do Concílio criticou apenas a hermenêutica da ruptura e não os textos em si, que alguém (penso em P. Cavalcoli [8]ou em Introvigne [9]) gostaria de “dogmatizar” até o ponto de considerar definitivos. Bem, como muitas vezes acontece quando se é mais papistas do que o Papa: Gherardini-de Mattei 1 – Equipe dos neocon [10] 0.


 


E um grande sucesso para Mons. Fellay, para a Igreja e para o Papa Bento, que se preocupa profundamente com duas coisas: a reversão de uma dolorosa ruptura eclesial e o redimensionamento do totem Concilio [11], a respeito do qual, em tempos insuspeitos, disse (Alocuções aos Bispos do Chile, de 13 de julho de 1988):


 


“A verdade é que esse Concílio particular não definiu nenhum dogma sequer, e deliberadamente escolheu permanecer num nível modesto, como um concílio meramente pastoral; e no entanto muitos o tratam como se ele se fizesse uma espécie de superdogma que retira a importância de todo o resto. [...] Não se suporta que se critiquem as decisão que foram tomadas pelo Concílio; por outro lado, se alguém coloca em dúvida as regras antigas, ou até as verdades principais da fé – por exemplo, a virgindade corporal de Maria, a Ressurreição corpórea de Jesus, a imortalidade da alma etc. – ninguém protesta, ou apenas o faz com a maior moderação”.


 


Enrico


 





[1] N.Trª.:  Wikipédia.




[2] N.Trª.: “Sentire cum Ecclesia” é um termo que foi cunhado por Santo Inácio de Loyola – o fundador dos jesuítas. Significa “Pensar com a Igreja”. Participação plena da vida eclesial em todas as suas dimensões e na pronta obediência aos Pastores, especialmente ao Romano Pontífice.




[3] N.Trª.: “Crer que a Igreja é “santa” e “católica” e que ela é “una” e “apostólica” (como acrescenta o Símbolo niceno-constantinopolitano) é inseparável da fé em Deus Pai, Filho e Espírito Santo No Símbolo dos Apóstolos, fazemos profissão de crer em uma Igreja Santa (“Credo… Ecclesiam”), e não na Igreja, para não confundir Deus com suas obras e para atribuir claramente à bondade de Deus todos os dons que ele pôs em sua Igreja”.




[4] N.Trª.: Ad tuendam fidem.




[5] N.Trª.: Abbé Claude Barthe – Wikipédia (em Francês).




[6] N.Trª.: Mons. Brunero Gherardini, autor do livro “Il Concilio Vaticano II. Un discorso da fare” (2009).




[7] N.Trª.: Roberto de Mattei, autor e historiados católico italiano, escreveu o “Il Concilio Vaticano II. Una storia mai scritta” (2010).




[8] N.Trª.: Refere-se a Padre Giovanni Cavalcoli.




[9] N.Trª.: Refere-se a Massimo Introvigne, escritor, filósofo e sociólogo italiano.




[10] N.Trª.: Neoconservadorismo (ou neocon) é uma corrente da filosofia política que surgiu nos Estados Unidos a partir da rejeição do liberalismo social, relativismo moral e da contracultura da Nova Esquerda dos anos sessenta. vide



[11] N.Trª.: Do latim: “Concílio


publicado por Afonso Miguel às 18:15 | link do post | comentar